Abri um podcast do Mítico. O convidado, especialista nessas coisas do além tecnológico, dá um alerta: “não bote os óculos, sua vida vai acabar”.

O Metaverso é viciante. Quem entra, fica lá. É um mundo virtual que, diferente dos joguinho que temos hoje, jamais para. Se você sai de lá por uns dias, perde uns dias – como quem se isola em casa no mundo real e perde o contato com amigos e notícias.

É um mundo melhor – especialmente para aqueles que não vivem o paraíso aqui no mundo real.

“O cara nos mostrou a vida dele no metaverso, um casarão, vendo filme numa tela gigante – aí depois mostrou a vida real dele, com uma caminha de solteiro e uma TV velha… em qual mundo tu achas que ele prefere passar o tempo dele?”



Nem só de fantasias vive o Metaverso.

“Imagina você dar aula para a sua turma, uma aula sobre foguetes – vocês podem ter a aula na NASA, vendo tudo e sentindo como se estivessem na NASA.”

Parece útil, e promissor.

E parece a Matrix. Aquela dos filmes.

Ainda não chegamos lá. Conseguimos mergulhar neste mundo novo apenas em termos de imagens e sons. O último desafio é criar um maquinário que dê à pessoa as sensações táteis – o toque, a pressão, as texturas.

Quando isso acontecer, acabou – até sexo, com todas as sensações reais, vai rolar por lá.

Eu lembro de quando tudo isso começou.

Há 23 anos anos atrás, eu conheci um cara que vivia dentro de EverQuest – o primeiro grande RPG desse tipo, com um mundo onde todo mundo interage online o tempo todo.

Na vida real, ele era um nerdão (mais nerd do que eu) incapaz de dar um soco ou de falar com uma menina. Mas dentro de EverQuest ele era um guerreiro, pegador, foda.

Onde ele preferia viver? Lá dentro, claro.

É a mesma questão enfrentada pelo garoto nerd que faz parte do grupo de protagonistas dos filmes novos da saga Jumanji: no mundo do jogo, ele é o The Rock, sem ter ido – na realidade – um dia que fosse à academia.



A diferença é que, na época, o cara do EverQuest tinha que sair para ir à escola. Imagino que tenha eventualmente saído para trabalhar.

No Metaverso, a proposta é que haja ensino, trabalho. Dinheiro – criptomoedas – tudo feito de vento, tudo fantasioso. Mas e daí? Nem todo mundo tem tanto apego assim à realidade.

O mundo é cheio de perdedores que anseiam por um mundo no qual possam experimentar o prazer, a vitória, o sucesso – de preferência sem o esforço necessário – mesmo que seja um mundo falso.

É por isso que as pessoas se drogam: para ir ao paraíso, nem que seja por alguns minutos. Só que as drogas não são socialmente aceitas, e fazem mal à saúde.

Não que o Metaverso seja a promessa de uma vida saudável, mas ok.


Zion

É provável que o Metaverso acabe “pegando”. Que muita gente se mude para lá, deixando aqui apenas um corpo, que passará anos movendo-se a esmo dentro de algum quarto.

Mas alguém terá que ficar no mundo real. Nem que seja para limpar a casa desses zumbis, entregar-lhes comida.

É provável também que isso crie um abismo – uma divisão de facções. Um movimento anti-Metaverso. Uma cultura e um modo de vida centrados na ideia de viver no mundo real.



Provavelmente o mesmo tipo de pessoa que hoje integra-se a estilos de vida como survivalistas, MGTOWs, e até mesmo gente que migra para o interior com a família e tenta evitar interações com a multidão.

O bom é que, habitando em mundos diferentes, pode ser que a grande guerra virtual entre Metaversers e Realidaders talvez nem ocorra.



Consequências políticas

Existem pessoas que gostam de viver em bolhas – não aceitam a discordância, o debate, o pluralismo. É gente doente, que vive de cancelamentos e linchamento virtual.

Essa gente toda provavelmente vai abraçar a ideia de morar em um mundo virtual mais ou menos customizado para seus complexos e idiossincrasias. É o sonho de Ícaro do totalitário enrustido: um mundo no qual só entram os concordantes.



Mas eu não vejo isso como algo negativo.

Eu vejo pelo outro aspecto – pelo aspecto de quem não entra nessas bolhas.

Para nós, isso será uma grande limpeza – tanto de outros espaços virtuais, como do próprio mundo real.

É como se esses doidos todos fossem morar em ilhas distantes – aparecendo apenas para pegar o iFood na porta e provavelmente para ir ao banheiro. De resto, ficarão lá dentro, em seus exercícios de masturbação intelectual, de afagos emocionais aos companheiros de ideologia.

Um grande alívio para quem fica do lado de cá.

Escritor, jornalista, videomaker e servidor público. Autor de "Política para Iniciantes" de outros livros. Às vezes, assusta as pessoas por falar o que pensa. É o profeta que uma geração alienada pelo TikTok precisava. Ainda será Presidente do Brasil (ou não).