Eu estou lendo uma análise “independente” escrita por um cara chamado Sergey Karaganov. O título é “A nova política externa da Rússia, a Doutrina Putin”.

Eu resolvi botar a palavra “independente” entre aspas, porque o tal Karaganov é diretor honorário do Conselho de Políticas Externas e de Defesa da Rússia. E porque o texto foi publicado no Russia Today, um site financiado pelo governo russo e que serve basicamente de porta-voz da visão do presidente Vladimir.

Russia Today: não engana nem a mãe.


Como fazer essa leitura

O interessante não é ver o que Sergey PENSA sobre o governo russo. É ler aquilo ali para saber o que o governo QUER QUE O MUNDO PENSE dele.

E entender, também, um pouco como funciona a cabeça desses caras, que agora se lançaram nessa guerra meio – aparentemente – sem nexo.


Como eu mesmo já dizia…

A Rússia e a China estão se assanhando porque enxergam um enfraquecimento de seus oponentes.

Vou traduzir o que diz Karaganov:

“Agora, o Ocidente está em um processo de lento mas inevitável decadência, em termos tanto de assuntos internos como externos e até mesmo economicamente. E é precisamente por isso que eles iniciaram esta nova Guerra Fria após quase 500 anos de domínio da política mundial, da economia e da cultura.”


China

O cara segue:

“Eu acredito que eles vão provavelmente perder e deixar de ser os líderes globais, tornando-se parceiros mais razoáveis. E a Rússia precisará então equilibrar as relações com uma China que é parceira, mas cada vez mais poderosa.”

Percebam que ele “analisa” a coisa assim, na verdade, já sabendo que os chineses vão ler. Ele está fazendo o dever de casa dele, indicando a Xi Jinpin o caminho por onde Putin quer ir.


Ex-repúblicas soviéticas

O Russia Today é um site EM INGLÊS, e ele tenta mesmo se passar por veículo imparcial de informação. Mas a gente sabe que é do governo russo, e é interessante porque até mesmo o design do site revela algumas coisas sobre a mentalidade de seus criadores (e do Putin).

Por exemplo, as editorias. Tem ali “Sports”, “Fashion”… e tem uma que é “Russia & Former Soviet Union” – ou seja, “Rússia e antiga União Soviética” – assim, como um bloco. O governo russo pensa em seus vizinhos como “seu bloco”.

O texto do Karaganov vai adiante:

“A história nos mostra que, desde o colapso da União Soviética 30 anos atrás, poucas nações do antigo bloco tornaram-se realmente independentes. E algumas delas jamais farão isso, por algumas razões.”

Em seguida, ele diz que as elites de muitos desses lugares não têm histórico e nem competências de construtores de Estados soberanos. “Quando o espaço cultural e intelectual (da URSS) desapareceu, isso prejudicou especialmente aos países pequenos.”

OU SEJA, ele está dizendo que a dissolução da União Soviética foi ruim não só para a Rússia, mas em especial para os parceiros menores – vendendo a ideia de que remontá-la é um objetivo futuro.


O cara chega a ser direto:

“Um passo crítico para criar um novo sistema (mundial de poder) é unir as terras – isso é uma necessidade para Moscou, não um simples capricho.”


Agora, vamos ver o embasamento disso…

O histórico das últimas 3 décadas, na visão russa

“Hoje, nós vemos o início da quarta era da política externa russa.”

Ele cita o final dos anos 1980 como a primeira delas, marcada pela fraqueza e a desilusão – “a nação perdeu a vontade de lutar, o povo queria acreditar na democracia e o Ocidente parecia estar trazendo a salvação”.

Em 1999, começa a segunda fase, dentro desta teoria, após o Ocidente (a OTAN) “trair os russos”, e “partir em pedaços a Iugoslávia” (naquelas guerras do Kosovo, da Sérvia, etc). Isso levou a Rússia a “começar a se reerguer, para reagir”.
Aí, temos a década dos anos 2010, nos quais ele cita a Guerra da Geórgia e outros episódios que mostraram a necessidade de a Rússia modernizar suas forças militares, mas já tendo condições financeiras e um rumo claro para isso.

“Há uma década atrás, a União Europeia via a Rússia como um país atrasado e fraco no canto do continente, tentando se virar diante de potências de verdade. Agora, ela (a UE) está tentando se agarrar a uma independência geopolítica e geoeconômica que está fugindo por entre seus dedos”.

Ou seja…

Com a “decadência inevitável do Ocidente” levando a uma tensão incontornável com as novas potências (na ótica do Sergey, Rússia e China), temos essa pauleira toda que está acontecendo.

Ele conclui assim:

“Eu entendo que os ocidentais estejam acostumados com um sistema mundial que permite aos americanos comprar a obediência de seus parceiros menores, enquanto esses aliados economizam em despesas militares vendendo parte de suas próprias soberanias nacionais.

Mas o que é que NÓS ganhamos com esse sistema? Especialmente agora, que ficou óbvio que ele alimenta a escalada de uma confrontação nas nossas fronteiras a oeste e em todo o mundo?

A OTAN se alimenta de confrontações provocadas, e enquanto ela existir, piores estas confrontações se tornarão.”


O que a Rússia deve fazer?

Agora, quando o analista “diz ao país o que ele deve fazer”, nós temos que entender as entrelinhas: ele está dizendo o que o amigo dele, o Putin, pensa em fazer.

Ele diz que, diante de derrocada da ordem mundial vigente, o melhor que a Rússia pode fazer é “sentar e esperar” dentro de sua “fortaleza neo-isolacionista”.

“Porém, neste momento, a História exige que tomemos uma atitude” – ou seja, partir para a porrada.

“O Oeste continua seu caminho de degradação moral, política e econômica, e as potências não ocidentais como a Rússia e a China vão inevitavelmente crescer em termos de força geopolítica, geoeconômica e geoideológica.”

“O Ocidente pode continuar tentando nos intimidar com sanções econômicas devastadoras mas nós somos capazes de contrapô-los com as nossas próprias ameaças de respostas assimétricas, capazes de abalar as economias deles e desestruturar sociedades inteiramente.”

Será que está falando de cortar o suprimento de gás e petróleo para a Europa?

Será que planejam fornecer bombas bombas atômicas para inimigos do Ocidente como o Irã?

Uma certeza, podemos ter: coisa boa, não é.


UM DETALHE: quando acabei de escrever esta coluna, fui dar uma olhada no Russia Today e ele não abre mais. Pela cara do erro, o servidor DNS não está mais conseguindo achar o site. Pode ser algum defeito, obra do azar… ou não.

Escritor, jornalista, videomaker e servidor público. Autor de "Política para Iniciantes" de outros livros. Às vezes, assusta as pessoas por falar o que pensa. É o profeta que uma geração alienada pelo TikTok precisava. Ainda será Presidente do Brasil (ou não).