Parece coisa do Cabo Daciolo, mas agora, é oficial. As palavras saíram da boca de Joseph Borell, um dos figurões da União Europeia: a Nova Ordem Mundial existe.

É isso aí: NOVA ORDEM MUNDIAL!

A expressão foi usada pelo cara em um discurso sobre a China e a Rússia.

Os dois países estariam “fazendo um esforço para redefinir” a ordem mundial estabelecida desde o fim da Guerra Fria.

Falou como se denunciasse alguma coisa muito secreta, muito surpreendente. Oras… a tal “nova ordem” justamente é caracterizada pela hegemonia do Ocidente e a exclusão dos derrotados de 1989.

É óbvio que eles, tendo acumulado poder econômico e militar, vão tentar mudar o jogo.


De onde saiu tanta valentia dos russos?

Vamos ser diretos: a turma do “Oriente” – chamemos assim – vem tomando coragem porque, na concepção deles, o conforto da vida pós-vitória na Guerra Fria tornou o Ocidente fraco.

Essa é a visão dos caras: o “fim da História” acostumou todo mundo nos EUA e na Europa a achar que a ordem das coisas é garantida, que nada vai acontecer.

Tiveram umas guerras? Tiveram. Mas foram todas uns passeios – os americanos lutaram apenas contra países que não tinham chance nenhuma. E mesmo assim, passaram alguns vexames – interpretados como sinal de fraqueza.

Resultado: chineses e russos olham para o Ocidente e imaginam um bando de bananões indecisos e indefesos.


Bananas indecisos e indefesos?

A tal “nova ordem mundial” é, numa visão mais “raiz”, mais tradicionalista, basicamente o triunfo do consumismo conformista.

É um mundo pasteurizado, habitado por panacas que não se arriscam e que não querem encarar questões “de fundo”, de base, de fundamento.

Garotas sentem-se “agredidas” por padrões de beleza ou por terem que trabalhar em algum emprego que não é o dos seus sonhos. Garotos não sabem nem trocar o pneu do próprio carro. Ninguém conhece o que é dureza de verdade.

Os grandes embates políticos deram lugar à militância identitária. Os “debates” da sociedade agora são sobre questões cosméticas e consistem em concursos de vitimismo. Encontram sua “expressão de luta” na lacração.

O “Novo Homem” deste admirável mundo pós-moderno é o “banana” politicamente correto, neutralizado, bundão, castrado, entupindo-se de antidepressivos, que acha que está “enfrentando o sistema” quando usa uma camiseta da Frida Kahlo.


O caso dos vídeos de recrutamento

Tem uma história que ilustra muito bem isso tudo.

Em 2019, tivemos os memes sobre os vídeos de recrutamento dos exércitos da Rússia, da China e dos Estados Unidos.

Chineses e russos filmaram cenas com armas, tanques, explosões, histórias de jovens tornando-se durões e dispostos a dar a vida pela pátria. Falaram de honra e das glórias de cada país no passado. Uma coisa épica. Quase um “300 de esparta” moderno.

Os americanos, por sua vez, fizeram um desenho animado coloridinho sobre uma garota criada por duas mães, “endurecida” pela doença de uma delas, e que decide alistar-se. No final, ela aparece sentadinha no banco de um lançador de mísseis mecanizado, sentindo-se super empoderada.

O Exército americano ressalta não mais sua força, mas sua inclusividade. Rambo não existe mais – seu lugar foi tomado pelo rostinho delicado de Emma. “O futuro é feminino”. Lindo.

Dá até vontade de tomar um suquinho de soja.

Quer ver esses vídeos? Clica aí…


É uma visão ultrapassada?

Pode até ser – mas é o que está na mesa. É o que rola na cabeça do russo e do chinês médio.

Eles olham para o Ocidente e veem presas fáceis. Ou, ao menos, enxergam fragilidades em inimigos que antes pareciam invencíveis.

Essa sensação deve estar ainda mais forte agora, depois de semanas de atrito.

Os americanos, ao invés de baterem o pé na Ucrânia, retiraram seu pessoal de lá com medo de algum soldado morrer e eles terem que enfrentar a Rússia. Os europeus, por sua vez, só falam em “consequências severas” mas evitam dizer alguma coisa mais específica.

Escritor, jornalista, videomaker e servidor público. Autor de "Política para Iniciantes" de outros livros. Às vezes, assusta as pessoas por falar o que pensa. É o profeta que uma geração alienada pelo TikTok precisava. Ainda será Presidente do Brasil (ou não).