Acabo de ler o texto “A falsa produtividade”, escrito pelo economista Mateus Frozza no site Farrapo.com.br. É uma fábula sobre diversos personagens que cursam faculdades públicas e, depois, acabam fazendo concursos públicos para áreas genéricas.

Fica claro que Frozza está fazendo uma crítica à realidade brasileira, que gasta milhões de reais em dinheiro dos contribuintes para formar profissionais que não contribuirão para o progresso e o bem estar da sociedade com seu conhecimento – pelo contrário, continuarão custando milhões aos cofres públicos, em funções com salários acima da complexidade de suas atribuições.

Bom.

A intenção do autor fica clara: ele está expondo aquilo que chama de “o jogo” – como “o jogo” funciona.

O caso é que ele, na verdade, arranhou a casca do verdadeiro problema. Abriu espaço – pelo menos na minha cabeça – para uma reflexão importante.

O problema do Brasil é – e tem sido por décadas – a desigualdade.

Não falo apenas desigualdade salarial, mas a forma desigual e excludente como nós, brasileiros, aprendemos a ver as profissões e os profissionais em geral.


A República das bananas dos Bacharéis

O Brasil, afinal de contas, nasceu como um império e depois uma república comandada por bacharéis. Uma nação imensa, povoada quase completamente por analfabetos mas capitaneada por diplomados.

Especificamente, sempre fomos mandados por UM tipo de “doutor”, de bacharel: o bacharel que “não exerce”.

Nossos luminares políticos, vindos de famílias abastadas, filhos de fazendeiros, tradicionalmente eram pessoas que iam à Europa e voltavam com diplomas em Direito, em Medicina, mas seguiam vivendo da atividade rural. Dedicavam-se à política e às conspirações porque tinham tempo: tinham a “vida ganha”, sustentados pelas rendas das terras e mais terras que herdavam de família.

“Presidente tal era advogado” – mentira, era um fazendeiro com diploma.

“Mas o ministro tal era engenheiro” – e no entanto nunca projetou nada. Vivia do gado, do café, do açúcar, como seu pai havia vivido e seu avô antes dele.

Essa é a nossa “via de regra” histórica. Um monte de “doutores” bem-nascidos. Que podiam ou não exercer suas “profissões” como hobby, se quisessem.

Em um lugar assim, o simples fato (ou seria ato?) de “ter diploma” passou a ser visto como um “passaporte para a riqueza”, por um povo que não entendia que a relação de causa e consequência, ali, era no sentido oposto.

E com isso, na psicologia as massas, o diploma passou a ser considerado uma espécie de “selo de qualidade”. Ou tu és bacharel, ou não és bacharel.

E “não ser bacharel” é ser “ralé”, “cidadão de segunda classe”. “Não ter profissão”.

Na cabeça do brasileiro médio, concluir ou não um curso superior é muito mais do que uma simples escolha racional de vida e carreira. É uma necessidade moral. Um pré-requisito para o sentimento básico de cidadania.

Todo mundo quer “ter faculdade”. O irônico é que, agora, quase todo mundo tem. Então, “ter faculdade” já não é diferencial algum. O Ensino Superior é o novo Ensino Médio do século XXI.

Resultado: o mercado está saturado de bacharéis e a maioria das pessoas forma-se em uma coisa para depois trabalhar naquilo que aparecer. A barriga, afinal de contas, tem fome. E os boletos vencem todo mês.


Enquanto isso, no mundo civilizado…

Pegue qualquer país mais evoluído – Alemanha, França, Suécia, Canadá, ou até mesmo lugares menos glamourosos como a Rússia, a Romênia. De certa forma, os próprios EUA podem entrar para nossa lista. Observe o mercado de trabalho destes países.

Neles, é possível ter uma ótima qualidade de vida trabalhando em uma profissão de nível técnico. Em muitos casos, até mesmo em empregos de nível médio.

As pessoas, lá, quando decidem fazer uma faculdade, o fazem pensando sim nos rendimentos mas, em especial, o fazem por uma escolha consciente e calculada de destino profissional. Afinal, há bons mecânicos ganhando mais do que médicos medianos nestes países.

Basta ligar a TV: a toda hora, surge algum novo programa norte-americano mostrando a rotina de profissionais da construção ou corretores de imóveis que ganham milhões sem curso superior algum.

O Leste Europeu é pródigo em escolas politécnicas – uma herança dos regimes socialistas, certamente. Os jovens da região acabam o ensino médio e aprendem uma profissão normalmente útil, necessária e com forte demanda no mercado. Saem dali direto para o trabalho em suas áreas de formação. E ganhando bem.

O interessante é que, nesses lugares, observa-se muito pouco (quando há) preconceito contra empregos que exigem menos escolaridade.

São sociedades que já compreenderam que não há lugar para todo mundo na Academia e nos escritórios.

Que mais vale o conhecimento de coisas que são aplicáveis e que geram riqueza, do que um diploma pendurado na parede da sala.

O Brasil talvez ainda leve algumas décadas para chegar a este nível de evolução filosófica.

E até que isso mude por aqui, seguiremos vendo legiões de formandos, todos os anos, ganhando diplomas que serão jogados em alguma gaveta enquanto seus donos correm atrás da sobrevivência dirigindo carro de aplicativo, servindo lanches, ou fazendo concursos.

Concursos que, aliás, já nem são garantia de rendas “acima da média” ou de “trabalho leve” como já o foram no passado.

Jornalista, assessor de imprensa, colunista de uma penca de jornais ao longo dos anos. Servidor público federal. Youtuber. Ativista #Redpill e historiador "freestyle". Autor de "Política para Iniciantes" e de outros livros. Site: www.fabiosalvador.com.br

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