O dilema das pessoas, hoje, parece ser esse: alienar-se ou continuar se importando, acompanhando a realidade, o noticiário, correndo o risco de ficar louco.

Esse foi um dilema que me atormentou, também, por muito tempo.

Até que, um dia – não sei direito quando – eu decidi aceitar a realidade como ela é. Parar de brigar contra o fato de que as pessoas são imperfeitas e a maior parte das coisas sequer faz sentido.

Em resumo, finalmente alcancei alguma paz quando admiti que o mundo é, de forma geral, uma guerra.

Inocentes morrem. Vilões saem impunes. A maldade e a estupidez humanas não conhecem limites.


A cena da metralhadora

Uma vez, vi um documentário sobre a Primeira Guerra Mundial e, no final, aparecia um soldado alemão a postos atrás de uma metralhadora, sempre de olho no relógio de pulso. Dali a pouco, batem as 11 horas – o horário marcado, nos termos do armistício, para o fim das hostilidades.

Aí, esse cara simplesmente tira o capacete, faz um aceno e sai caminhando no meio dos cadáveres, da fumaça e da destruição. E vai embora para casa, para seguir com a vida dele.

bravo!

Ao invés de ficar soluçando e olhando horrorizado para todo aquele caos, o cara calmamente acendia um cigarro.

Ele também não ficava se remoendo por ter matado um monte de inimigos. Eles, afinal, o teriam matado se tivessem a chance. Acima de tudo, aquele soldado aprendeu a fazer as pazes com uma versão realista de si mesmo, como alguém capaz de puxar o gatilho quando preciso.

O tal soldado se adaptou a dormir ao som das explosões, pois sabia que elas não iriam cessar nunca mais.

É preciso fazer o mesmo: endurecer, abandonar todo idealismo besta sobre o mundo e sobre si próprio.


Então, isso ainda te surpreende?

A angústia surge de uma discrepância entre o “mundo ideal”, no qual todo mundo vive durante a juventude, e a dura realidade.

Algumas pessoas ficam trancadas nessa fase até a velhice. Às vezes de forma sincera, mas geralmente como uma afetação “bonitinha”, uma espécie de charme juvenil.

Vou confessar uma coisa: adultos maduros que se ofendem e se machucam facilmente me irritam.

Que tipo de vida mimada uma pessoa precisa ter para chegar aos 40 ou 50 anos ainda agindo como um floquinho de neve?

“…mas não é justo…”

Sobre o Brasil e a pandemia

Não dá para chorar pelo que vemos no noticiário. Sim, é tudo horrível, é tudo tenebroso mas… e aí?

“Ah, o governo…” – o governo age da forma como se sabia que agiria.

“Ah, mas então eles não deveriam estar no poder…” – meu amigo, todos aqui já tivemos debates com algum militante maluco ou algum terraplanista histérico. Todos aqui já vimos o desinteresse com que o brasileiro médio trata as questões do Estado e da política.

É perfeitamente válido estar descontente e querer mudar as coisas. Mas revirar os olhinhos e sentir um sobressalto no coração, soltar um suspiro como quem levou um susto? Não. Ah, não.

Nada – absolutamente nada – do que está acontecendo é surpresa.

Um fraterno abraço.

Boa sorte.

Jornalista, assessor de imprensa, colunista de uma penca de jornais ao longo dos anos. Atualmente, trabalha para o Governo Federal. É um Ativista dos Direitos dos Homens e um racionalista pragmático. Autor de "Política para Iniciantes" e de outros livros. Site: www.fabiosalvador.com.br

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