Sejamos francos: a maioria das relações de longo prazo tem uma mecânica disfuncional. E isso é, na maior parte dos casos, fruto da imaturidade de uma ou das duas partes.

Relacionamentos são uma coisa complicada. Casamentos se desfazem, amizades se rompem. A pandemia da Covid-19 causou um crescimento mundial no número de divórcios simplesmente porque muitos casais, obrigados a conviver em casa por mais tempo do que o normal, percebem que não se suportam.

Os conflitos nos relacionamentos surgem, em muitos casos, da imaturidade das pessoas diante das dificuldades de convivência.

Existe uma forma muito simples de descobrir, mais ou menos, o grau da tua própria maturidade.
Basta uma pergunta – uma única pergunta:

“Quando alguém, de quem eu dependo emocionalmente – alguém que é importante para mim – me decepciona, me ofende ou me deixa no vácuo, qual é a minha reação mais característica?”

Essa é a grande pergunta.

Existem três estágios de maturidade bem característicos.


Estágio 1 – A pessoa se fecha

A pessoa “emburra-se” e sofre profundamente. Inconscientemente, espera que seu “fechamento” seja percebido pela pessoa que causou-lhe a mágoa. E espera que esta pessoa ADIVINHE sua tristeza e seus sentimentos.

Esta reação é característica de uma maturidade extremamente infantil com relação ao conflito. Ela emula o comportamento dos bebês, que ainda não sabem falar, e por isso choram – na esperança de que a mãe descubra o que há de errado.


Estágio 2 – O ataque de fúria

Uma vez superada a fase da birra silenciosa, temos os adultos que já não agem como bebês, mas estacionaram no estágio de maturidade das crianças pequenas: diante da mágoa ou da ofensa, essas pessoas explodem. Aumentam o tom da voz e entram em um frenesi.

No fundo, esperam que o outro lado na relação ceda, corra a fazer alguma coisa para apaziguá-las. Seja pelo medo diante do comportamento agressivo, ou pelo desespero e pelo desejo de dar fim a esta situação caótica.

Estágio 3 – A apatia

Existem pessoas que aguentam quietas as mágoas e decepções. E não o fazem por estarem “fechadas em si mesmas”. Permanecem impassíveis porque simplesmente deixaram de se importar.

Este parece ser um comportamento mais maduro do que os dois anteriores – e, de fato, é – mas ainda assim não é uma forma sadia de lidar com problemas no relacionamento. A relação – namoro, casamento, amizade – pode não terminar, mas ela também já não tem significado algum. A pessoa que adota esta atitude pode sofrer menos, mas não pode mais ser feliz e nem fazer a outra pessoa feliz.


Meninos e Meninas

As mulheres, normalmente, estacionam no estágio 1 – aqui temos a famosa figura da esposa que faz um “bico” e se recusa a dizer ao marido o que ele fez que a magoou. Esperam, no fundo, que ele adivinhe.

Isso acontece porque muitas meninas – ainda hoje – são educadas desde cedo para serem aduladas, cuidadas. São acostumadas com a ideia da “donzela em perigo”, a ser resgatada por alguém.

E no fim das contas, mantém-se neste estágio porque isso é aceito como comportamento normal – nós homens aceitamos.

Talvez isso deva-se ao controle que as garotas normalmente têm sobre a relação. É delas, na maioria dos casos, a decisão de iniciar ou não a relação – aceitar ou não o convite para sair, por exemplo – e são elas que detém, por convenção social, o poder de decidir se vai haver sexo ou não em cada ocasião.

Outro estágio de parada comum para mulheres é o 2 – a conhecida figura da mulher “surtada”.

Os homens, por sua vez, acabam presos geralmente nos estágios 2 e 3.

No estágio 2, temos os homens explosivos e gritões – e também os violentos e os abusivos. Acredito que poucas coisas neste mundo sejam mais assustadoras do que um adulto grande e forte em pleno surto de descontrole, funcionando com a mentalidade de uma criança furiosa.

No estágio 3 temos a maioria dos homens, especialmente aqueles que são casados há muitos anos. A razão para isso está na educação dos meninos, afinal, somos treinados desde cedo para sermos durões, para ignorar a dor e para jamais – em hipótese alguma – discutir sentimentos.

O mundo é cheio de casais disfuncionais

Relacionamentos – namoros, casamentos – disfuncionais normalmente são protagonizados por pessoas presas em algum desses três estágios.

Quem não conhece um casal no qual a mulher (presa no estágio 2) grita, surta, e o marido (preso no estágio 3) simplesmente sai para dar uma volta, vi para o bar, ou fica olhando para a TV?

Quem de nós nunca ouviu algum casal de vizinhos, ambos estacionados no estágio 2, gritando como malucos durante uma discussão?

Existem, inclusive, muitos casais respeitáveis, com casamentos que duram décadas simplesmente porque as duas pessoas estacionaram no estágio 3, e conseguem aturar-se porque estão simplesmente anestesiadas com relação ao que as incomoda na relação.


A superação da mediocridade

A superação dos estágios 1 e 2 depende do desenvolvimento do autocontrole – seja ele o controle da raiva na hora da “explosão”, ou do nervosismo na hora de formular uma explicação do que, afinal, está te incomodando.

Já o estágio 3 é mais complicado. Ir além dele vai depender do desenvolvimento de uma coisa chamada “vulnerabilidade”. Não no sentido de tornar-se fraco e vulnerável, mas sim de ACEITAR a própria vulnerabilidade.

Aceitar que é possível ter sentimentos, falar sobre eles, sem sentir-se um frouxo ou duvidar da própria capacidade – no caso dos homens, da própria masculinidade.

Uma pessoa precisa, primeiro, ter a coragem de olhar com sinceridade para os próprios sentimentos e, depois, ter a serenidade de expressá-los de forma sincera.

Casais que discutem abertamente aquilo que não funciona na relação acabam sempre encontrando uma saída. Em muitos casos, porque desenvolvem uma relação saudável e ficam juntos e felizes. Em outros, porque chegam à conclusão – calma e racional – de que as coisas não vão dar certo, e cada um vai viver sua vida.

Jornalista, assessor de imprensa, colunista de uma penca de jornais ao longo dos anos. Atualmente, trabalha para o Governo Federal. É um Ativista dos Direitos dos Homens e um racionalista pragmático. Autor de "Política para Iniciantes" e de outros livros. Site: www.fabiosalvador.com.br

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