Todo homem e toda mulher é uma pedra bruta – e como pedra bruta, pode até ocupar um espaço na construção do mundo. Mas, sendo pedra irregular, desajusta tudo ao seu redor. Arranha as outras pedras com suas pontas.

Quem quiser ser realmente útil e ter um papel verdadeiro no edifício da humanidade, precisa lapidar-se. De pedra bruta, precisa se transformar em pedra polida.

O primeiro requisito para isso é a vontade para tal.

O segundo é a coragem: a coragem para ver as próprias imperfeições. E para desbastá-las, com paciência.

O grande problema em qualquer projeto de aperfeiçoamento pessoal é que ele requer muito esforço, persistência e determinação. E as pessoas – especialmente hoje em dia – não são educadas e nem encorajadas a ter essas qualidades.

A “solução” mais fácil – já que construir um caráter virtuoso e mantê-lo é tarefa grande demais – é simplesmente aparentar a virtude.

É esperar que ela surja dentro de si, vinda de fora.

Essa é a razão porque tanta gente, hoje, se apega a algum tipo de religiosidade radical, marcada muito mais pela encenação das virtudes do que pelo desenvolvimento delas.

Hoje, qualquer sujeito boçal pode sentir-se respeitável, e ser tratado como tal, sem mudar uma vírgula da própria essência: basta que compre um terno, uma gravata, e ande por aí com uma Bíblia embaixo do braço. Se for mulher, uma saia comprida e a renúncia à maquiagem pesada geralmente compõem o kit.

Todos nós conhecemos alguém assim – aquela figura que chora cantando louvor, ora de olhinho fechado, chega a tremer o lábio pedindo a Deus “libertação do pecado”. Mas que não perde um segundo olhando com sinceridade para dentro de si.

Talvez essa gente até acredite que algum milagre está acontecendo. Até que, um dia “se desvia do caminho do bem”, imediatamente atribuindo o desliza a uma “ação do Adversário”.

(o termo “adversário”, aqui, usado para designar o Capiroto)

Não me entendam mal: existem muitas pessoas verdadeiramente religiosas, que passam a vida toda tentando copiar os exemplos de Jesus e dos apóstolos. As igrejas estão cheias de gente séria. Mas boa parte dos frequentadores busca, mesmo, uma mudança cosmética de atitude em relação à vida.
Uma mudança sem esforço.

Um jeito de “zerar o placar da vida” em um passe de mágica.

Como se enfiar a cabeça na água usando um roupão branco fosse “hackear” o cérebro e fazer com que o “sistema” da pessoa dê um “upgrade” automático, sem esforço, sem estudo, sem treino.

Como se, para lapidar e polir a pedra bruta, bastasse pintar nela uma cruz.

Uma dica?

Esqueça esses atalhos. Pratica tua religião (ou não-religião), acredita no que tu quiseres – a vida é tua, a fé é tua. Mas olha para dentro de ti, pega teu martelo e te põe a trabalhar.

Jornalista, assessor de imprensa, colunista de uma penca de jornais ao longo dos anos. Atualmente, trabalha para o Governo Federal. É um Ativista dos Direitos dos Homens e um racionalista pragmático. Autor de "Política para Iniciantes" e de outros livros. Site: www.fabiosalvador.com.br